sexta-feira, 11 de março de 2011

ZANOTO: A POESIA BRASILEIRA PERDE SEU GRANDE PROTETOR



por Ademir Bacca no seu Blog

Diversos foram os caminhos percorridos por JOSÉ DE SOUZA PINTO e todos eles tiveram como ponto de partida e também de chegada a poesia. Ele e seus alter egos, promovendo a poesia de autores de todo o Brasil, especialmente daqueles não consagrados.

Usando o pseudônimo “ZANOTO”, durante 42 anos escreveu a coluna “DIVERSOS CAMINHOS” no Jornal Correio do Sul, da cidade mineira de Varginha. Gostava do anonimato e raras foram as vezes em que ele teve sua imagem publicada, sendo para muitos dos poetas a quem ele projetou, apenas uma referência escrita no cabeçalho da sua coluna.

Quem mostrou a sua cara pela primeira vez foi o GARATUJA, do qual eu era editor e em cujas páginas ele publicou sua coluna até o último número do jornal. A foto, a mesma deste post, foi batida durante o encontro literário de Registro (SP), em 1990, no qual ele foi homenageado. Foram dias maravilhosos aqueles que passamos juntos, do qual participaram, entre outros: Fernanda Frazão, Dinovaldo Giglioli, Carlos Barros, Jaime Vieira, Carlos Barros, Artur Gomes, Costa K, Tanussi Cardoso e os saudosos Márcio Carvalho e Erenita Postingher.

ZANOTO, fã incondicional de Fernando Pessoa, de música e de um bom vinho (quantas referências ele fez em sua coluna a vinhos maravilhosos de Bento Gonçalves que eu supostamente teria lhe enviado), morreu no dia 21 de janeiro, deixando um vazio difícil de ser preenchido no peito da poesia circulante de todo o país.



Desejos...





... a gente espera até cansar, até a última janela se fechar, eu prometo. Porque de alguma forma a gente sabia que desistir não era nobre, tinha escrito no livro que tava em cima da cama. Uma já nem sabia ver as horas, não sabia mais do vento, nem do cheiro da chuva quando cai sem avisar: terra molhada. A outra só sabia que o tempo corria num tic-tac sem fim. Não tinham mais histórias, não tinham mais medos, nem segredos que pudessem guardar na caixinha fechada com os sete cadeados.
A pulseira laranja estendida no pulso há meses e meses arrebentou. E agora, onde posso ir para ver os desejos se realizarem?

Camila
http://euemeuseus.blogspot.com/


NOITES EM BRANCO


Ah, branca página,
branca e pálida vagina,
pele emudecida, papiro sem pátina
onde a cena ainda se imagina
e o mundo parece mágica.


Branca brusca página, albina,
que mão alguma assombra
poente algum assassina
ao mergulhar na penumbra.


Mudo mistério, açucar secreto,
nuvem parada, neblina, refúgio,
praia sem pegadas, neve sem vestígio,
espelho sem imagem, a penetro:


Página que sempre me ensina
(invisível escrita peregrina)
por este labirinto de ecos:
A luz num canto do jardim
contém segredos para mim.

Rodrigo Garcia Lopes (fevereiro de 2011)




VIDA TODA LINGUAGEM



Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.
Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias
Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
/ contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

PREFÁCIO

Quem fez esta manhã, quem penetrou
à noite os labirintos do tesouro,
quem fez esta manhã predestinou
seus temas a paráfrases do touro,
a traduções do cisne: fê-la para
abandonar-se a mitos essenciais,
desflorada por ímpetos de rara
metamorfose alada, onde jamais
se exaure o deus que muda, que transvive.
quem fez esta manhã fê-la por ser
um raio a fecundá-la, não por lívida
ausência sem pecado e fê-la ter
em si princípio e fim: ter entre aurora
e meio-dia um homem e sua hora.


SONETO ANTIGO

Esse estoque de amor que acumulei
Ninguém veio comprar a preço justo.
Preparei meu castelo para um rei
Que mal me olhou, passando, e a quanto custo.
Meu tesouro amoroso há muito as traças
Comeram, secundadas por ladrões.
A luz abandonou as ondas lassas
De refletir um sol que só se põe
Sozinho. Agora vou por meus infernos
Sem fantasma buscar entre fantasmas.
E marcho contra o vento, sobre eternos
Desertos sem retorno, onde olharás
Mas sem o ver, estrela cega, o rastro
Que até aqui deixei, seguindo um astro.


BRASÃO

Nasce do solo sono uma armadilha
das feras do irreal para as do ser
– Unicórnios investem contra o Rei.
Nasce do solo sono um facho fulvo
transfigurando a rosa e as armas lúcidas
do campo de harmonia que plantei.
Nasce do solo sono um sobressalto.
Nasce o guerreiro. A torre. Os amarelos
corcéis da fuga de ouro que implorei.
E nasce nu do sono um desafio.
Nasce um verso rampante, um brado, um solo
de lira santa e brava – minha lei
até que nasça a luz e tombe o sonho,
o monstro de aventura que eu amei.


Sinto que o mês presente me assassina


Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Soneto

Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.

mário faustino

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