quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Jura Secreta 86

ainda que eu escrevesse
meu amor
não posso dizer-te
tudo que posso
palavrAr-te
a carne arde
a arte
a tarde
ainda cedo
não tenha medo
se o amor é cego
e o sexo aflora
e teu corpo chama
lavro a parte
que me cabe
e deixe que o papel escorra
para que não morra
toda sede
de paixão sempre devora
fios elétricos
nos cabelos
girassóis presos nas coxas
e esse rio das ostras
algas crescendo
entre teus pêlos
estrelas gritando em tua boca
peixes mergulhando
no teu ventre
esta língua lâmina
que me lambe
tantos dentes
lamparina acesa
entre teus olhos
alhos e cebolas
cheiro de bife mal passado
almôndegas de soja
queijo e vinho branco
tantos lençóis
e outras camas
quando te quero dentro

essa matéria sem sonho
no país do sono
onde o crime é permitido
sem nenhum castigo
digo
fosse pássaro
e não foice
asas e não patas
fosse mata
e não cinzas
águas e não fogo
índios e não estrumes
que se dizem gente
eu pensaria de repente
num poema outro
mas este céu é pouco
esta cidade é besta
a educação é bosta
este país é merda
onde a justiça é cega
o presidente dorme
os senadores dormem
os deputados dormem
governadores dormem
vereadores dormem
e os prefeitos dormem
e os banqueiros cada vez mais ricos

procura-se estudantes
para um festival de música
mentira.
aqui eles nãos sabem cantar
e muitos menos compor
procura-se estudantes
para um setembro de poesia
mentira.
aqui eles não sabem
o que significa
professores de literatura
não sabem
ensinar poesia


esta primavera é foda
flores folhas faíscas
febre fuligem ferrugem e essa palavra presa
o tempo é só grito do pássaro que não canta
pedra rústica na garganta
e um rio que é só represa

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